Moradores de Samambaia protestam
contra apartheid econômico e social
que separa quadras pares e ímpares
Desde a implantação da cidade os moradores de Samambaia sofrem certa discriminação por parte dos habitantes de locais economicamente mais privilegiados do Distrito Federal. Afinal, a cidade foi criada para “assentar famílias carentes, oriundas de invasões e fundo de quintais”. Poderia se esperar grande coisa dessa gente?
Contudo o quadro mudou e atrai novos olhares. Hoje Samambaia é, provavelmente, a cidades que mais evolui no Distrito Federal. A comunidade participa de modo admirável. Mas internamente ocorre nova forma de segregação: a avenida central mais parece um muro que separa moradores das quadras ímpares e quadras pares.
No lado ímpar não tem metrô, calçadões, ciclovias, bancos, lojas... Abandonadas à própria sorte as escolas contém alunos e professores desestimulados e inseguros. Motoristas de ônibus preferem não trabalhar à noite, nem os policiais das “rondas ostensivas”. Posto de saúde, arborização, praças, brinquedos pras crianças? Formação, esporte, lazer, arte, trabalho e renda pra juventude? Como? E os mais velhos?
Protestos
Carlos Alberto Ferreira é líder comunitário nas quadras ímpares de Samambaia, onde mora desde 1989. É radialista e publicitário autodidata. Participa dos conselhos de segurança e cultura da cidade.
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Carlos Alberto no Governo na Cidade |
Skartazini – Você que se empenha tanto em melhorar as condições de vida nas quadras ímpares de Samambaia, como explica essa diferença?
Carlos – Samambaia é uma cidade atípica no Distrito Federal. Foi planejada para assentar famílias que moravam em áreas irregulares ou pagavam aluguel em moradias precárias de fundo de quintal. Comparando com Riacho Fundo I, que foi criada para assentar servidores graduados GDF, percebe-se que lá os investimentos governamentais são muito mais generosos. Mesmo aqui dentro da nossa própria cidade existem áreas que se desenvolvem mais. Esse ‘apartheid’ se deve principalmente ao esquecimento governamental do qual padecem as quadras ímpares, carentes de equipamentos de saúde, segurança, educação, cultura, esporte, lazer... Finalmente no dia 23/11/07 o governador Arruda esteve com sua equipe em Samambaia para verificar ‘in loco’ as reivindicações da comunidade e liberar recursos para obras de infra-estrutura.
Skartazini – Mas Samambaia não era a ‘menina dos olhos’ do governador Roriz e sempre foi muito simpática ao governador Arruda?
Carlos – A expressão ‘menina dos olhos’ foi usada à exaustão. No dia do Governo na Cidade declaramos o fim de ‘Samambaia Menina’. Hoje ela é moça, quer assumir compromisso, crescer... É inegável que aqui se realiza muitas obras, as empresas estão se implantando, etc. Mas nada que gere benefício imediato à parte ímpar da cidade. Hoje essas quadras estão praticamente desguarnecidas de equipamentos comunitários, de segurança, arborização, calçadões, ciclovias, etc. Isso sem falar do Parque Três Meninas, cujo abandono gerou o movimento Amigos dos Parques que reivindica a revitalização deste e a efetivação dos parques Gatumé e Boca da Mata.
Skartazini – Para a opinião pública do Distrito Federal o metrô atende Samambaia e a cidade se desenvolve plenamente. Mas cadê os equipamentos públicos?
Carlos – Tínhamos aqui perto o posto de saúde do Programa Família Saudável, mas fechou por falta de pagamento de aluguel. Deu na mídia, então o secretário de saúde, especialista em medidas de urgência, correu e pagou o aluguel. Há mais de seis anos pleiteamos um Centro de Saúde para atender a população das quadras sul ímpar com mais de 40 mil habitantes. O metrô, só agora o governo Arruda autorizou estudos para estendê-lo até o final da cidade. Por ora sofremos com a carência e sucateamento dos ônibus enquanto as vans são perseguidas acusadas de pirataria. Parece que o deputado Fraga esqueceu do levantamento que fez durante a campanha. E a segurança? A partir das 22h conta-se nos dedos as viaturas que patrulham as quadras ímpares. Os motoristas de vans e ônibus estão à mercê de assaltantes. Em 2007 registrou-se mais de 80 assaltos.
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| População protesta contra o monopólio no transporte coletivo |
Moradores das ímpares pedem melhorias para essas quadras |
Skartazini – Além de você quem mais ergue a bandeira em favor das quadras ímpares de Samambaia?
Carlos – Há um número expressivo de lideranças locais se organizando no movimento Pró-impares, que pretende ser o porta-voz da carência de melhorias comunitárias locais. Participam várias prefeituras de quadras como a 207, 221, 423, o Joel da Expansão e o Carioca da 205. Participam várias ONG’s, entre elas a Casa da Mãe Solteira, o pessoal da Feira Permanente, professores e outros que, de algum modo, tem suas vidas ligadas ao dia-a-dia das quadras ímpares de Samambaia.
Planejamento urbano
José Alis Azevedo Lima é arquiteto e urbanista, gerente de exame, aprovação e elaboração de projetos da Administração Regional de Samambaia. É o primeiro morador e fundador da primeira associação de moradores da cidade.
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José Alis Azevedo Lima |
Skartazini – Estamos aqui para falar da discriminação que existe em nossa cidade, separando as quadras pares das quadras ímpares. Como você vê essa questão?
Zé Alis – Vejo com naturalidade. Samambaia é uma cidade planejada e começou a ser implantada por etapas, sendo a primeira ainda em 1984, no Setor Habitacional de Interesse Social – SHIS, onde fui o primeiro a residir. A partir de 1989, com a distribuição de lotes pelo sistema de concessão de uso, começou o assentamento populacional nas demais áreas: primeiro na sul par e finalmente nas quadras ímpares. Com a criação de Samambaia, em 25 de outubro de 1989, a cidade cresceu muito e a infra-estrutura não se estendeu com a mesma proporção e intensidade. O GDF ainda está implantando obras, mas os serviços essenciais já estão prontos: iluminação, água, esgoto, galerias pluviais, pavimentação, telefonia... A licitação de lotes comerciais também começou nas quadras pares, por isso ali há maior adensamento de atividades econômicas. Com a licitação dos lotes comerciais nas quadras ímpares esse quadro começa reverter.
Skartazini – O desenho da cidade foi feito de uma só vez e a ocupação ocorreu em dois ou três anos. Então porque obras como o metrô, ciclovias, calçadões e praças param no meio da cidade?
Zé Alis – No plano diretor está prevista a extensão da linha do metrô até o final, com corredores viários, linhas de integração, etc. O plano urbanístico, que ajudei a elaborar, contempla toda a cidade de modo bastante equilibrado. O que falta é implantar as obras previstas inclusive no lado ímpar. Uma cidade não nasce pronta. Em 2008 as quadras ímpares recebem muito mais investimentos do que as quadras pares.
Administração regional
José Luiz Vieira Naves, administrador de Samambaia, é formado em economia, com especialização em políticas sociais, planejamento e orçamento. Nasceu em Uberlândia/MG, viveu em várias cidades do interior de Goiás e em 1975 veio para o Distrito Federal. Ocupou vários cargos no GDF, na área social e de planejamento.
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Administrador José Luiz Naves |
Skartazini – Venho para tratar, do ponto de vista político e administrativo, de um assunto polêmico em Samambaia: o ‘apartheid’ social e econômico instaurado na cidade, que separa quadras pares e ímpares. Quais os procedimentos da administração diante deste clamor da população?
Naves – Isso de fato tem gerado muita polêmica. Minha primeira resposta é que a cidade começou pelas quadras pares, afinal, tinha que iniciar por alguma parte. Convém perceber que Samambaia recentemente completou 18 anos e já se aproxima de 250 mil habitantes. As demandas da população são externadas ao administrador que as leva aos parlamentares e ao poder executivo do Distrito Federal. No dia 23/11/07, por ocasião do Governo na Cidade, o governador Arruda manifestou interesse em investir em todo o espaço urbano de Samambaia, mas principalmente nas quadras ímpares, mais desprovidas de investimentos públicos.
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Administrador Naves leva demandas da |
Skartazini – Hoje, dizer que o metrô chega a Samambaia é apenas meia verdade. Metade da população não conta com este meio de transporte. Não existem linhas de integração. Usuários do transporte público sofrem pelo sucateamento das frotas de ônibus, perseguição às vans e falta de segurança. Assistimos impassíveis ao surgimento de um novo ‘gueto’ neste lado da cidade?
Naves – Jamais. Samambaia tem dois centros urbanos bem desenhados: um que abrange as quadras 202, 102, 302, 301,101 e 201, na área central da cidade, outro que abrange as quadras 117, 119, 217 e 219, justamente aqui na parte ímpar. Tomei a iniciativa de transferir a administração regional aqui para as quadras ímpares, justamente para promover o desenvolvimento neste setor da cidade. O governador Arruda decidiu que fará mais três estações do metrô em Samambaia até 2010. Ele afirma que no Distrito Federal teremos o melhor transporte público do Brasil. Está se investindo U$ 270 milhões para implantação do projeto Brasília Integrada, que integrará todo o sistema de transporte público do Distrito Federal. Cobraremos qualidade das empresas de transporte coletivo. O governador autorizou a implantação de 54 quilômetros de calçadões nas quadras ímpares. Está em construção uma quadra poli esportiva na quadra 433, expansão da Samambaia. Construiremos uma feira na quadra 419. Implantaremos o terminal de ônibus interestadual do Distrito Federal na quadra 327. Temos 71 obras autorizadas pelo governador Arruda para Samambaia em 2008. Dessas, 32 já estão licitadas. Concluiremos a construção da ciclovia das quadras pares e imediatamente iniciaremos a construção nas quadras ímpares. Serão 70 quilômetros de ciclovias.
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Nova sede da administração regional de Samambaia |
Skartazini – E os lotes comerciais?
Naves – É outra questão importante. O lado ímpar da cidade precisa ser mais povoado por comércios. Até agora os empresários preferiam investir nas quadras pares porque lá tem mais infra-estrutura. Com a vinda da administração para cá fomentaremos os investimentos públicos e privados neste setor da cidade. A previsão é que em cinco anos a cidade esteja completa de forma equilibrada. Samambaia é uma cidade cujo projeto arquitetônico é dos mais bonitos do Distrito Federal. Temos aqui muito espaço, ruas largas, o que hoje é um dos maiores atrativos para investimento.
Skartazini – Eu próprio vi professores deixarem de lecionar nas quadras ímpares, pela dificuldade de acesso e insegurança nas escolas. Na parte sul ímpar, onde moram 40 mil pessoas, não há um Centro de Saúde. O que dizer disso?
Naves – Temos dois centros de saúde nas quadras ímpares: um na 611 e outro na 429. Aumentaremos a carga horária dos médicos. Em 2008 implantaremos, em toda a cidade, 32 Postos de Saúde da Família – PSF. Cada posto deve atender quatro mil pessoas. As escolas serão reformadas e estamos construindo duas novas: uma na quadra 403 e outra na quadra 404. A maior obra do governador Arruda em 2008 será a vila olímpica, cuja pedra fundamental foi implantada em novembro último, aqui na quadra 119 de Samambaia.
Skartazini – No lado ímpar da cidade temos dois parques: Três Meninas e Gatumé. Ambos abandonados e degradados. O que o administrador fala sobre isso?
Naves – Hoje tem 50 funcionários da Novacap no parque Gatumé plantando duas mil árvores. O parque será cercado e removeremos os chacareiros irregulares que ocupam o local. Temos que preservar o meio ambiente. Além desses dois parques temos também em Samambaia o parque Boca da Mata e a preservação desses espaços é prioridade nesta gestão do GDF. Tenho certeza que também é prioridade da comunidade.
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| Nascente no Parque Gatumé | Pedra fundamental da Vila Olímpica |
Iniciativas comunitárias
Os moradores sabem que não devem apenas esperar do governo a tão desejada melhoria de vida. Tão pouco adianta apenas protestar. É necessário se organizar, participar, ter iniciativas. As fotos e legendas a seguir mostram uma série de ações promovidas pela comunidade das quadras imparem de Samambaia, em seu próprio benefício.
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| Projeto Jovem Cidadão mobiliza 600 crianças e adolescentes em toda a cidade |
Paulo de Tarso leva seus personagens à Escola Classe 325 |
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| Alunos e professores fazem a festa junina | Projeto ensina xadrez
nas ruas da QR 121 |
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Crianças improvisam balneário |
Francisco Gomes é zelador de córregos e nascentes |
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Instituto de Arte Cia. e Cidadania |
Projeto solidário para crianças e idosos na QR 325 |
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| Parceria de moradores e administração para fazer praça na QR 323 |
Jovens radialistas de Expansão de Samambaia na Rádio Nacional |